Max Oliveira

09/01/2020

Bootstrapping 2 - Como empreender sem investidores

Compartilhe a sua ideia e execute o quanto antes

A MaxMilhas atua num mercado gigante. Estima-se que, a cada ano, sejam emitidas mais de 190 bilhões de milhas nos dois principais programas das companhias aéreas nacionais, Multiplus e Smiles. Dessas, mais de 30 bilhões expiram. Além disso, segundo dados do Banco Central, são emitidos por ano mais de 220 bilhões de pontos de cartão de crédito que também poderiam ser transformados em milhas, desses expiram mais de 40 bilhões. 

Se apenas as pessoas que acabam deixando seus pontos expirarem os vendessem na MaxMilhas, receberiam por volta de 2 bilhões de reais. Esse é o tamanho do desperdício no país.

Quando olhamos o mercado aéreo, o Brasil está entre os maiores do mundo, com aproximadamente 300 mil passagens aéreas vendidas todos os dias.

Eu poderia dizer que fui um visionário. Enxerguei um mercado gigante e comecei a explorá-lo. 

Seria lindo, mas não seria verdade. 

Não comecei a empreender por conta desses números. Confesso até que tive conhecimento deles quando já estava tocando o negócio.

Comecei a empreender devido a um momento de reflexão na vida. Tinha uns cinco anos de atuação no mercado de trabalho. Empregado de uma empresa maravilhosa, atuava numa área que amava, mas sentia que algo não se encaixava. A forma que eu acreditava que as coisas deveriam acontecer, os comportamentos que deveriam ser esperados e valorizados eram diferentes do que via na empresa. 

Sim, aquele famoso conselho que você ouve quando está se formando e ignora: veja se os valores da empresa que você vai trabalhar tem a ver com os seus. Formando, você quer saber o valor do seu contra-cheque e esse negócio de cultura é ainda muito complexo para você se dar ao trabalho de tentar entender. 

Diante daquela situação de desconforto profissional,, comecei a pensar o que eu queria no longo prazo na minha vida. Quando se é adolescente, você sonha com conquistas improváveis. Mas chega a vida adulta e você tem que escolher um curso para fazer que vai culminar numa profissão para se ganhar o pão de cada dia. Não reclamo da profissão que escolhi, na verdade, como já disse, amava minhas atividades. No entanto, comecei a ter o desejo de sonhar de novo. Queria construir algo que faria meus netos terem orgulho de mim. Mais do que isso, algo que me faria sentir importante no mundo, algo que fosse impactar a vida de muitas pessoas.

Criar algo grandioso não é simples e sabemos que empreender na maioria das vezes é uma jornada solitária e, na realidade, um tanto improvável de se obter sucesso. Sabemos que nosso país não tem as melhores condições para se empreender e encarar essa jornada só com dinheiro do próprio bolso é quase como encarar a seleção da Alemanha no futebol, descalço, com menos 3 e sem goleiro (e acho que nossos jogadores vestiam chuteira em 2014).

Então, tinha tido uma ideia despretensiosa há poucos meses atrás e, quando veio esse momento de reflexão, decidi começar mesmo sem saber aonde chegaria.

Tive a ideia devido a um evento que ocorreu comigo. Já morei em várias cidades do país a trabalho e sempre precisei viajar muito para encontrar amigos e familiares. Certa vez, fui comprar uma passagem aérea para visitar minha namorada. A passagem estava custando 100 reais. Maravilha, né? No fim do processo de pagamento, apareceu uma mensagem de erro. Tive que recomeçar a compra e a mesma passagem tinha aumentado para 500 reais. Fiquei indignado! Achei aquilo um absurdo e me fez refletir como nós, brasileiros,  somos reféns do preço das passagens aéreas. 

Temos a 12º passagem aérea mais cara do mundo e, quando se analisa a renda per capita da população, a 4º mais cara  (http://economia.estadao.com.br/blogs/fernando-nakagawa/passagem-de-aviao-no-brasil-e-a-12a-mais-cara-do-mundo/).

Inconformado como todo empreendedor, pensei em uma solução para realizar aquela viagem. Percebi que aquela mesma passagem não tinha aumentado de valor em quantidade de milhas. Não tinha milhas próprias na época e aí pensei que talvez algum amigo meu tivesse milhas sobrando. Pegar o telefone e ligar para várias pessoas não era muito prático. Então, tive uma ideia: e se existisse uma plataforma online onde as pessoas que têm muitas milhas pudessem colocá-las à venda e quem deseja viajar e só encontrasse  passagens muito caras, recorreria a essa plataforma. Assim nasceu a ideia da MaxMilhas.

Fiz várias coisas erradas ao longo da trajetória, mas fiz uma coisa certa logo no começo que foi crucial para que eu, de fato, iniciasse o negócio:  contei a ideia  para todo mundo. Só assim fui percebendo que existiam, sim, pessoas com interesse em vender suas milhas e foi dessa forma também que achei os outros dois loucos que toparam tocar essa ideia comigo.

Tem gente que tem medo de alguém roubar sua ideia. Primeiro, se você não vai executá-la, acho melhor que outro a crie do que ela nunca acontecer (não acha?); segundo, se você achar alguém com interesse em fazer a mesma coisa, pode estar com seu sócio fundador na sua frente, aproveite; terceiro e mais importante, apenas com o tempo, você descobrirá que o que tem valor não é a ideia e, sim, a capacidade de executá-la.

Lembro que, quando começamos, morria de medo de alguma grande empresa ver aquela ideia e copiar. Quase não queria divulgar o site devido a esse medo. No entanto, como iria crescer sem divulgação? Só depois de um tempo, percebi que o medo da concorrência é proporcional a sua incompetência como empresa. Isso mesmo. A medida que fui montando um time melhor, fui percebendo a expertise que estávamos acumulando sobre nosso negócio que só a gente tinha e sentindo mais confiança de que nenhuma outra organização poderia executar aquilo tão bem. Ainda tenho medo dos concorrentes, não sou tão prepotente. Mas, pelo menos hoje, encaro o jogo da forma certa: o objetivo é desvendar como ser o melhor naquilo que faz e não como evitar que outros te copiem. Foco é importante nesse desafio. Com foco, pequenas empresas conseguem ganhar de grandes corporações (vários exemplos na história comprovam isso: se quiser ver alguns, compartilhei alguns dos meus aprendizados em Stanford neste artigo).

Então, uma vez encontrado meus sócios fundadores, iria encarar esse mercado gigante. Qual a chance de dar certo? Quase nenhuma. Assim, apresento o segundo conceito do bootstrapping.

2ª lição: é impossível, portanto, dê um passo de cada vez.

Logo em meu segundo ano, descalço no mundo dos negócios, conheci a Endeavor, instituição que apoia empreendedorismo em quase 30 países ao redor do mundo (neste artigo eu conto  conto como me tornei empreendedor endeavor). Lá, vi uma frase que acredito representar bem o bootstrapping:

Se não existisse o impossível, até onde você conseguiria ir?

Achei essa frase a perfeita descrição da minha história. Comecei um negócio sem experiência no mercado específico de atuação e nem no mundo das Startups, com mais duas pessoas tão desprovidas quanto eu, com um sonho de revolucionar o mercado aéreo mundial. Gente, fala sério, quando conseguiria fazer isso? Nunca. Realmente, era impossível e nem eu mesmo acreditava (por isso, enquanto comecei a MaxMilhas também estudava para tentar fazer um MBA no exterior e, então, voltar com uma ideia revolucionária factível). Mesmo assim, sem nem saber, apliquei o que essa frase fala. Ignorei o impossível e comecei meu projeto pensando apenas no próximo passo: se conseguisse fazer uma ou duas pessoas viajarem todos os dias já valeria a pena. Aliás, essa foi a meta que falei para meus sócios quando começamos o projeto. Na época, ainda era um hobby sem expectativa de virar um grande negócio. Por isso digo: pense pequeno e execute de forma grandiosa.

Revolucionar um mercado enorme e tradicional era impossível, mas criar um site e vender uma passagem aérea por dia era factível. Provavelmente, nunca chegarei no meu grande sonho mesmo, pois, para revolucionar o mercado aéreo mundial, ainda falta muita estrada (ou seriam nuvens?). Mas estou indo muito mais além do que se não tivesse nem mesmo começado.

Essa frase que vi na Endeavor me tocou de forma tão profunda que fiz uma música sobre o tema:

Se não existisse o impossível – ouça aqui


Alcançar sem tentar, perderia a razão

Cada um escolhe seu caminho e então

Você não acredita em meu sonho?

Eu nunca fiz questão

De chegar

Mas não abro mão

De tentar


No próximo artigo, vou contar como validamos as hipóteses iniciais na MaxMilhas.

Perdeu o artigo anterior? Não brinca!  Acompanhe aqui.





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Comentario salvo para avaliação.

09/01/2020 22:46:46 | Martha g Oliveira

Vc não para de me surpreender! Fantástico !

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