Max Oliveira

18/10/2018

Como delegar (um artigo de quem não sabe muito bem, mas se esforça para aprender)

Vejo muitos empreendedores passarem por um desafio parecido - como gerenciar a equipe quando ela cresce acima de 30 pessoas? Como reagir quando se percebe que o que te fez chegar até aqui não será o que te fará chegar na próxima fase? 
Eu participei de um painel do Scale-up Summit, da Endeavor, que abordou o assunto. Foi um prazer poder participar e aprender com André, da Inloco; Daniel, da Pitzi; e Mariana, da Gupy. Para quem não viu, está aqui. 
Decidi escrever um artigo sobre delegação, um dos temas abordados. 

No começo de uma startup, a capacidade de execução do empreendedor de fazer acontecer, de atuar em todas as áreas, é o que faz a diferença. Depois que a equipe cresce, é preciso começar a delegar. Nessa hora, a sua capacidade de liderar outras pessoas que atuam na execução das diversas frentes do negócio é o que está em xeque. 

A MaxMilhas está chegando em 300 colaboradores e ainda peno com a função de delegar. Não é fácil. Mas, olhando para trás, vejo que já aprendi algumas coisas que valem a pena compartilhar. Uma startup muda constantemente e seus fundadores precisam ter essa capacidade de se reinventarem também. Lembro quando sentávamos numa sala de 25 metros quadrados. Eu ficava na ponta da mesa. Ao meu lado direito, três pessoas de tecnologia. No lado esquerdo, uma pessoa de financeiro e mais duas de operações. O cliente ligava, eu ouvia. Um programador tinha uma dificuldade, eu percebia ao ver sua cara de “como vou fazer isso?”. A pessoa do financeiro só ia embora quando me mostrava a conciliação do dia fechada - até porque para ela sair da sala eu tinha que me apertar para ela passar atrás. Assim, eu gerenciava (ou controlava) tudo. 

Lembro de um de nossos colaboradores me dizendo “Max, como você consegue ver todos os erros que acontecem?”. Em uma startup ainda em processo de descoberta de seu modelo de negócio, não são poucos os erros. Eu me orgulhava disso. Até o dia que isso começou a ser meu principal empecilho para crescer. De fato, aprendi muito ao acompanhar todos os processos de perto nos primeiros anos da empresa. Aconselho todo empreendedor a ficar inserido em todos os processos, principalmente aqueles relacionados aos clientes, até encontrar o modelo de negócio escalável tão desejado. Não apenas acompanhar, mas colocar a mão na massa mesmo. Eu respondia por dois nomes, o meu e por Thiago. Quando um cliente ligava, eu atendia com o nome de Thiago. Se a situação ficava complicada, pedia um minuto para chamar o dono, e aí o Max atendia. 

Essa capacidade de jogar em todas as posições é essencial para o começo de um negócio. Porém, quando a empresa chegou em 30 pessoas, ficava difícil gerenciar todas as atividades. Eu trabalhava todas as horas possíveis do dia e não dava conta de tudo. E, obviamente, faltava tempo para as coisas mais importantes. Afinal de contas, o que você acha que vem primeiro: o mais importante ou o urgente? 
Percebi que outras pessoas precisariam tomar algumas decisões, serem responsáveis por processos que eu não supervisionaria. Eu queria dar autonomia. Eu precisava dar autonomia. Eu iria morrer se não desse autonomia! Mas, como? 

Sim, você, empreendedor, é quem mais entende do seu negócio. Chega a ser injusto querer que outras pessoas executem tão bem quanto você dentro da sua empresa. Você é a única pessoa que está ali há tantos anos; foi você quem idealizou aquilo tudo e, no fim das contas, como é você quem vai avaliar o que foi feito, esse jogo fica fácil. Até entender que o jogo não é esse. Para começar um negócio, você precisa conseguir executar. Para crescer um negócio, o jogo passa a ser: fazer com que outras pessoas executem melhor que você. É preciso liderar. É preciso delegar. Por meses – ou anos – eu tentei e não consegui delegar. Ainda me envolvo em coisas que não deveria, eu sei. Mas, isso não elimina o fato que eu evoluí nessa jornada. Abaixo, compartilho os principais aprendizados que me ajudaram a virar essa chave. 

1. Entenda o nível de delegação para cada pessoa em cada atividade
Chega um belo momento em que você entende que será preciso delegar para crescer. Então, você vai do oito ao oitenta e começa a delegar tudo para todos. Com certeza isso não vai dar certo. No primeiro momento que alguma coisa sai errado, você acaba alimentando aquela antiga crença que não leva ninguém a lugar algum: “se você quer que algo seja bem feito, faça você mesmo”. É preciso entender em qual nível de autonomia cada pessoa do seu time está pronta para atuar. Na verdade, para uma mesma pessoa, dependendo da atividade em questão, pode ter um nível de delegação diferente. Para executar bem uma atividade, não basta ter conhecimentos técnicos ou habilidades comportamentais. É preciso entender bem do negócio e isso pode levar tempo. Sem entender todo o contexto, a chance de êxito é menor.

Fiz um curso da K21 sobre Management 3.0 alguns anos atrás e achei bem legal conhecer os sete níveis de delegação.
1-Mandar: o gestor toma a decisão sozinho e informa ao time o que e como deve ser feito.
2-Vender: o gestor toma a decisão e explica o porquê ao time, deixando todos cientes do que o motivou.
3-Consultar: o gestor consulta o time e busca opiniões diversas antes de tomar sua decisão final.
4-Concordar: o gestor toma a decisão em consenso com o time, sendo só mais um no processo de decisão.
5-Aconselhar: o gestor aconselha o time e, depois, o time pode tomar a decisão final sozinho.
6-Questionar: o time toma a decisão e a apresenta para o gestor, que pode ou não aprová-la.
7-Delegar: o time toma a decisão sozinho e pode executá-la sem precisar consultar o gestor.
Todas essas abordagens devem ser aplicadas de acordo com o nível de experiência prévia e conhecimento atual do negócio de cada colaborador para realizar aquela atividade específica. 

2. Retire as cercas invisíveis
Depois de um tempo delegando, eu comecei a perceber que algumas pessoas ainda achavam que não tinham a autonomia necessária para realizar algumas atividades que eu entendia que tinha delegado.
Comecei a deixar claro qual nível de delegação a pessoa teria. Percebi que algumas vezes a pessoa não achava que poderia tomar algumas decisões que tinham autonomia para tal. Para aquelas atividades que eu queria participar de alguma forma, deixar isso claro também facilitou o processo de tomada de decisão. Muitas vezes, existem cercas invisíveis. Alguns colaboradores ficam frustrados achando que não podem tomar algumas decisões, e os gestores frustrados porque o time não tomou essas decisões. 

3. Pare de achar que você faz tudo melhor que todo mundo
Quantas vezes você já ouviu alguém te aconselhar: “contrate pessoas melhores que você”. Isso, de fato, é extremamente importante. Quando comecei a contratar pessoas bem mais experientes do que eu, o meu negócio mudou de patamar. Porém, vamos falar a verdade: nem sempre isso é possível. Não porque você, fundador, seja necessariamente muito bom. Às vezes falta muita experiência. Mas, como já expliquei acima, ninguém tem tanta vivência do seu negócio quanto você. Ainda, é sua visão que está sendo implementada. Então, ninguém melhor do que você para saber se está sendo implementada conforme esperado.
Portanto, sim, algumas responsabilidades terão que ficar com você por muito tempo. Mas, entenda o que você é bom de verdade e o que você não manda bem. Reconhecer as suas fraquezas talvez seja o maior sinal de fortaleza. Se você acha que é bom em tudo, provavelmente falta um pouco de autoconhecimento. Delegue essas atividades e não apenas elas. Você precisa escolher quais são as atividades que você irá conseguir agregar mais valor. Seu tempo é valioso e precisa ser bem implementado. 

4. Não espere que as outras pessoas executem exatamente da mesma forma que você
Todos os fundadores acabam delegando. Seja por falta de opção, seja por consciência. Quando começam a delegar, normalmente se frustram rapidamente, pois a outra pessoa não realiza uma atividade da mesma forma que eles fariam. Existem diferentes formas de se chegar no mesmo resultado. Deixe que as pessoas te surpreendam e deixe que elas aprendam com seus próprios erros. Esse aprendizado é importante para a empresa.
É preciso distinguir o que deve ser decidido por você; o que as outras pessoas vão te convencer do contrário ao que você acreditava inicialmente; aquilo que você deixará a outra pessoa executar, mesmo sem concordar; e aquelas questões que as outras pessoas nem precisarão gastar energia para tentar te convencer. 

5. Contrate pessoas que fluem com você
Por fim, é necessário trabalhar com pessoas que fluem bem com você. Se você trabalha em uma startup que cresce exponencialmente, não tem tempo para discussões não objetivas. Se você começa a conversa discutindo algum problema específico do negócio e com frequência acaba discutindo a relação entre vocês, é um indício que não está fluindo bem. Tive a sorte de trabalhar diretamente apenas com pessoas que admiro bastante. Cada uma no seu nível de senioridade, mas todas bem-intencionadas, capacitadas e engajadas com o nosso propósito. Mesmo assim, comecei a perceber que a relação com algumas pessoas simplesmente não fluía da forma que deveria. Não por erro dela, nem meu, ou, talvez, um pouco por erro dela e um pouco meu. A questão é que quem quer ir muito rápido, precisa minimizar o máximo possível do atrito.

Quer dizer que preciso trabalhar apenas com pessoas que concordam comigo e não discutem? Não, obviamente não. É necessário discussões. Inclusive falo sobre a importância de se discutir ideias sem consenso para a inovação neste outro artigo aqui. Ter uma relação que flui facilmente auxilia com que pessoas possam trazer ideias diferentes sem medo que outros discordem e, assim, construam juntos algo que não seja óbvio antes da discussão.

A MaxMilhas vem crescendo muito, como vocês podem ver pelo gráfico abaixo. Esses são alguns aprendizados que foram importantes para gerenciar a empresa por esse crescimento. Confesso, ainda tenho muito para evoluir nesse quesito. Ainda me pego microgerenciando algumas atividades. Às vezes porque são muitas pessoas novas que ainda não conhecem o contexto suficientemente para saberem como agir, outras porque eu erro na ansiedade de querer fazer acontecer. Nesses momentos, relembrar esses conceitos ajuda a perceber como as relações podem ser diferentes para que os profissionais cheguem em sua melhor performance e você consiga focar no que vai fazer a diferença para o próximo passo de seu negócio.

Max é Engenheiro de Produção e já passou por grandes empresas como Vale e Ambev. Cofundador e CEO da MaxMilhas, empresa que oferece passagens aéreas econômicas emitidas pelas milhas de outras pessoas, fez da sua dor pessoal e sua pão-durice um negócio que movimenta milhões de reais e, principalmente, pessoas. Afinal, o brasileiro merece viajar mais.

Nas horas vagas, também empreende, claro. Aí, o desafio vira música. Compositor desafinado, mas inspirado, coloca nas suas composições a dor e a delícia de ser empreendedor. Aumente o som: Acessar Playlist!


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Comentario salvo para avaliação.

01/05/2019 13:25:53 | Joaquim Bemfeito

Parabéns pelo texto e Obrigado! Não esta sendo fácil lidar com algo que sempre quis e trabalhei para acontecer, o crescimento da empresa. As vezes penso em ficar pequeno, pq não quero abrir mão de algumas coisas da minha vida pessoal, mas delegando as funções vai ajudar e muito. Agora espero por um texto falando de como contratar bons profissionais kkkkkkk. Sucesso!

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