Max Oliveira

19/11/2019

Limonada: “Empreender não é o jogo do acerto, é o jogo do conserto”



Em um certo momento à frente de seu negócio, Max Oliveira pensou que era hora de deixar o posto. “A empresa cresceu e exigiu de mim uma atitude de líder que eu achava que não tinha, meu lance era mais executar”, diz. Isso foi em 2015, quando a MaxMilhas, uma plataforma onde é possível vender milhas acumuladas ou comprar passagens aéreas a preços mais baixos que os do mercado, começou a crescer e a ser mais lucrativa do que ele jamais havia imaginado. O faturamento tinha aumentado quatro vezes e a equipe, só 50%. “Foi um ótimo ano, mas eu não estava emocionalmente preparado para esse salto”, diz. Nessa hora, havia gente para cumprir as tarefas necessárias para que a empresa continuasse aumentando – e seu criador precisava mudar de postura. “Queria ser um líder, sim, mas um líder que fosse querido pelas pessoas, o que não estava acontecendo. Parei, refleti, mudei minha maneira de agir. Aprendi que para ser amado é preciso amar as pessoas também”. Profundo? Pode ser, mas é que Max tem alma de artista e vê a vida, mesmo dentro de uma empresa, com algum viés poético. Apesar de ter estudado engenharia, tenta por um pouco de poesia no cotidiano e acaba de lançar seu disco, em que fala do mundo corporativo como se fosse um romance, e se prepara para colocar um livro no mercado. “Como Fazer tudo Errado e dar Certo é o nome do meu livro. E é mais ou menos a história da MaxMilhas”, conta. Nessa entrevista, ele fala mais de como é que funciona essa filosofia na prática.

https://www.youtube.com/watch?v=lElHMWfI4k0&feature=youtu.be

Como foi o comecinho do MaxMilhas?

Eu tive essa ideia num dia em que tentei comprar uma passagem para visitar minha namorada em outro estado. A passagem estava custando R$ 100 mas, na hora do pagamento, houve um problema, tive que recomeçar o processo e a mesma passagem havia subido pra R$ 500. Fiquei indignado! Eu estava com saudade da namorada, mas também não era tanto assim [risos]. Eu sou pão-duro. Aliás, se eu não fosse tão pão duro, a MaxMilhas não existiria. Mas veio uma luz quando percebi que o custo da passagem não tinha alterado em quantidade de milhas. E nesse dia fiquei pensando: “e se houvesse uma maneira das pessoas trocarem ou venderem suas milhas para quem precisa viajar?”. Saí de casa e contei a ideia pra uns amigos, em um bar, e fui vendo que as pessoas tinham milhas e não sabiam o que fazer com isso. Acho que essa foi uma boa atitude. E é um erro de muita gente guardar a ideia, não contar. Quando você conta pra pessoas, pode aparecer uma ajuda pra você começar seu negócio. 

Qual foi o aprendizado mais importante à frente da empresa?

Quando pedi demissão na empresa em que eu trabalhava para ficar mais tempo na MaxMilhas… Nesse época, eu saí pensando em fazer um MBA ao mesmo tempo até decidir o que faria da vida. Eu estava voltando pra Belo Horizonte (MG), onde minha família mora, saindo de Vitória (ES), onde eu trabalhava. A viagem é longa. Eu vim dirigindo e recebendo mensagens dos meus sócios, que estavam eufóricos.  Geralmente vendíamos 5 passagens por dia e, nesse dia, foram 40. Fiquei refletindo… o que havia acontecido para ter esse aumento? Senti que tinha algo errado ali e, quando cheguei em BH, descobri que eram fraudes: os compradores não existiam. Aí saquei o dinheiro que tínhamos em conta na mesma hora, mesmo tendo a garantia do intermediador de transações online. Eram pouco mais de R$ 20 mil reais, mas era quase tudo o que tínhamos no caixa. Ali, aprendi que temos que agir muito rápido. Se tivesse esperado, teríamos perdido tudo. Aprendi que empreender é uma montanha-russa mesmo e que as decisões têm que ser ágeis. Sentiu que tem algo errado, tome uma atitude.

Você não é aquele típico empreendedor desde criancinha. Qual a parte boa de se ter uma carreira antes de criar seu negócio?

Eu segui uma carreira tradicional apesar de ser um sonhador… Sonhei em ser jogador de futebol, músico… Mas fiz Engenharia de Produção em Belo Horizonte, depois fui trabalhar em duas grandes empresas brasileiras, na Ambev e na Vale. Criei a MaxMilhas nesse meio tempo, mas sem ver o negócio como meu sustento. Eu achava que ainda teria uma grande ideia e, quando saí do emprego, foi porque estava descontente – e a MaxMilhas estava começando a se pagar. Foi mais de um ano tocando o projeto paralelamente, de madrugada, aos sábados e domingos. Quando eu consegui chegar no break even, comecei a contratar pessoas e só aí que eu fui pedir demissão. Eu trabalhei 5 anos no mercado, tinha uma grana guardada… Se eu tivesse saído lá no comecinho de 2012, talvez eu não tivesse aguentado. Por mais que dinheiro não seja o seu principal foco, cara, passa um ano, você não ganhou grana… Chega um momento em que não aguenta mais. Então acho importante viver essa vida dupla enquanto você está amadurecendo seu projeto.


Como escolheu seus sócios, os que ajudaram a fundar o negócio?

Eu contei pra pessoas sobre a ideia que tive e aí eu cheguei no meu primeiro sócio, o Conrado, que é meu meio-irmão. Ele achou legal e começou a executar. A gente começou a fazer tudo errado e ia tentando consertar depois. Aquilo foi importante porque eu trabalhava muito na época e o Conrado tinha mais tempo disponível. Assim ele se dedicou a fazer as coisas acontecerem, mesmo que sem ter tudo planejado. E nessa um amigo meu comentou “tenho um amigo que tá acabando agora de fazer um site de compras coletivas e procurando outro projeto”. É o Iran, que foi outro sócio-fundador. Eu chamei o cara lá em casa, apresentei um PowerPoint com o projeto pra ele e falei “cara, quanto você cobra pra fazer um site assim? Ou você tocar o projeto comigo?”. Ou seja, chamei pra ser sócio ali mesmo” [risos]. Então acabei fazendo tudo meio errado. Tem gente que fica esperando o momento certo, espera ter o planejamento, o dinheiro… Acho que você tem que executar e depois você vai consertando, se for o caso. Aliás, não é à tôa que estou escrevendo um livro: “Como fazer tudo errado e dar certo”.

Em algum momento você pensou em desistir da MaxMilhas?

Tenho uma história… Em 2015, o faturamento da empresa cresceu 4 vezes. Já tava em alguns milhões, e a equipe cresceu 50% só. Então foi um ano de resultado financeiro muito bom, quando a gente começou a ter lucro de verdade. E foi o ano mais difícil pra mim. Eram 40 pessoas e achei que não tinha capacidade de ser um líder para elas. Pensei “eu não sou líder, eu sou executor, sou o cara que faz”. E quando a empresa cresce, você não pode ser só executor, você tem que ajudar que outras pessoas executem. Comecei a viver uma crise existencial ao perceber que as pessoas na empresa não gostavam de mim. Isso me levou lá na relação materna, sabe? Minha mãe me teve muito nova, com 18 anos, então teve uma carência no começo da vida. E aí eu pensei em desistir. Eu não consegui delegar, queria executar tudo do meu jeito e passava um pouco por cima das pessoas. 

E como saiu dessa?

Eu lembro que eu tinha uma pessoa de Recursos Humanos na empresa, a Silvana, que me ajudou muito. Ela disse algo que me marcou. “Max, você não precisa fazer com que as pessoas gostem de você, é uma decisão sua. Tem muito gestor que ninguém gosta. Tudo bem! Você só tem que conseguir fazer esse elo funcionar”. Porque eu cobrava as pessoas e eu sabia que eu tava certo, na maioria das vezes [risos], mas meus funcionários não tinham confiança por causa do meu jeito. E depois dessa reflexão eu entendi que, no fundo, o que eu procurava com o empreendedorismo era ser amado. E, pra ser amado, você tem que aprender a amar. E foi isso que eu aprendi. E foi um processo doloroso, mas continuo aqui.



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